SEMENTES

Bem Vindos!

Sempre pensei que escrever é semear idéias.
Aqui vocês encontrarão as sementes que eu já plantei,
que germinaram, cresceram, deram flores e frutos.

Esse Blog é a semente dos frutos colhidos há muito tempo,
elas dormiram na escuridão por longos anos
e agora
eu estou a semeá-las novamente...,
para germinarem, crescerem, florescerem...
e um dia darem seus frutos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A AMAZÔNIA É NOSSA





Quarta-feira, 21/7/93

A Amazônia é nossa

BIA BOTANA

Mais uma vez, no curto espaço de tempo de dois meses, as Forças Armadas norte-americanas se dedicam a entusiasmados exercícios em campanha na região de fronteira da Guiana com o Brasil. Na ocasião anterior, em maio, foi reativada a antiga base naval norte-americana de Makouria, no rio Essequibo, a 120 km de Georgetown, após uma ausência de mais de 25 anos. Colônia holandesa, a Guiana veio a ser dominada pelos ingleses (1814), tornando-se uma República Independente só a partir de 1970, quando adotou um alinhamento francamente prócomunista. Com a derrocada soviética em l99l e pressionada por uma economia caótica, agravada pelo acordo desvantajoso com o FMI, a Guiana abandonou o socialismo radical e aproximou-se da social-democracia, tendo como padrinho ninguém mais que o ex-presidente dos EUA, o democrata Jimmy Carter. Dessa maneira, ao final de 1992, as portas daquele país foram literalmente abertas para os norte-americanos e agora em 1993 para seu atual presidente, o também democrata Bill Clinton.

Para os leigos, pode parecer uma ingênua coincidência de ações norte-americanas, mas para aqueles versados nos macetes históricos, a situação permite observar uma notável ação estratégica, onde a passos largos caminha-se para um objetivo determinado. E visivelmente acentuada a tendência norte-americana de tornar efetiva a sua presença na América do Sul, como já o fez na América Central com suas bases no Panamá, aqui incurcionando na cobiçada região amazônica. O combate ao narcotráfico, mais precisamente aos cartéis de Medellín e Calli, que possuem rotas com passagem por Paramaribo, capital do vizinho Suriname, seria justificativa mais que louvável para a presença militar dos EUA na Guiana não fosse seu obscuro e latente desejo imperialista sobre a Amazônia.

A verdejante hiléia, designação dada pelo naturalista alemão Humboldt à floresta amazônica, recobre com a delicadeza de uma pele um dos solos mais ricos do mundo, apesar de impróprio à agricultura. São notáveis seus r€cursos minerais, onde pode-se encontrar não só ouro, diamante, bauxita, cassiterita, cobre, mas muito mais. Por outro aspecto, a diversidade de vegetais existentes, muitos dos quais ainda desconhecidos, aguça a comunidade científica internacional, que crê ser possível encontrar entre eles a cura da AIDs, do câncer e outras doenças.

A Amazônia tem a sua maior parte, 5 milhões de km2, em solo brasileiro, correspondendo a 60% deste. Ora, é em razão disso que orgulhosamente o brsileiro diz: "A Amazônia é nossa!" Apesar deste mesmo brasileiro, quase sempre, não estar nem aí com a Amazônia, fazendo tal expressão de posse da boca para fora. O mesmo acontece com os políticos e governantes, seja em nível federal, estadual ou municipal, muito mais preocupados em fazer reles politicagem. Quando se interessam, ou estão de olho nas verbas - no quanto poderão pôr no bolso -, ou estão de olho nas urnas - nos votos que irão angariar nas próximas eleições, sem, em nenhum momento, prestarem atenção na relevância nacional.

A Amazônia é a nota promissória, o lastro brasileiro, entretanto, nem nos preocupamos de sentar em cima do nosso tesouro para ninguém pegar, afinal, ele é tão imenso, quem o poderia roubar? Não o usamos e deixamos o caminho livre para quem quiser usar. O projeto Calha Norte, direcionado à rápida colonização da Amazônia, urge, mas não se pode esperar milagres das nossas carentes Forças Armadas, é preciso mais. É necessário que se repense a situação amazônica, não só tendo em vista o desenvolvimento regional, mas sua contribuição efetiva à economia nacional, ao propiciar um novo direcionamento econômico, com o extrativismo inteligente de riquezas, que permitirá ao Brasil uma participação signiÍicativa no mercado internacional. Mais do que nunca, a Amazônia precisa receber uma visão empresarial dinâmica que dê progresso ao País e não cultive o atraso já existente, pois bem sabemos agora que a devastação da amazônia brasileira foi superestimada ao final da década de 80, com o único intuito de constranger e causar sérios embaraços ao Brasil, e assim atender as intenções pouco ecológicas e humanistas dos governos dos países industrializados da Europa e dos EUA, os quais são os verdadeiros predadores do planeta.

Está na hora de acordarmos. Se a Amazônia é nossa tratemos de cuidar dela, antes que dela algum malandro lance mão; depois, não adianta reclamar. Os russos também não acreditavam no fim da União Soviética, viram só no que deu? O que antes parecia ser só ficção virou fato.

Bia Botana é analista política

DEMOCRACIA DE MENTIRINHA



Quarta-feira, 14/7/93

Democracia de mentirinha

BIA BOTANA

A ordem de prisâo contra PC desencadeou a maior crise institucional dos últimos tempos. O comportamento irresponsável, .mesmo que justificável da Polícia Federal representa uma insubordinação inadmissível num órgão, institucional, cuja existência justifica-se pelo conceito protecional que oferece à sociedade para a manutenção da lei e da ordem. As Forças Armadas. a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia Federal são instituições que possuem, no seu âmago, o princípio disciplinar. onde a obediência à ordem hierárquica superior determina o potencial de comando; na prática o saber obedecer é o saber comandar. A presente insubordinação da PF revela a que ponto a subversão se tornou presente na instituição, fruto esta de caos em que caiu o País nos últinros anos e principalmente do desmantelo criminoso sofrido pela PF no período Collor.

A democracia contemporânea teve seu nascimento e desenvolvimento a partir da implantação e implementação do livre comércio na Europa. Da mesma forma que ocorrera, já na antiguidade. o desenvolvimento comercial que resultou em luta de classes: tal dinâmica social se deu e se dá em razão da ascensão constante de uma classe social sobre a outra, devido ao poderio econômico e financeiro também em constante movimento, tornando o fato de o "dinheiro mudar de mãos" um ciclo transformador da própria sociedade capaz de determinar um processo evolutivo heterogêneo onde possibilita às várias camadas sociais adquirirem educação pela necessidade sempre nova de aculturação.

Em razâo do que foi dito acima, é impossível estabelecer-se uma democracia sem que haja liberação econômica, ou melhor, sem que haja uma efervescência comercial, já que a democracia é o resultado do desenvolvimento comercial, pois a demanda de mercado pede o crescimento produtivo, desencadeando toda atividade econômica. O comércio de riquezas  sempre foi o grande instrumento transformador da humanidade e é inegável que foi nele a origem da democracia. Ora, no Brasil o que se conhece é uma falsa democracia. Implantada no final do século passado pelas elites conservadoras interessadas em manter as rédeas do poder, a nossa democracia, desde o seu nascimento, foi castrada, refletindo mais os anseios dos grupos dominantes de modo a estabelecer uma oligarquia velada, eternamente protegida por um arcabouço constitucional para atender-lhe às vontades, em detrimento da verdadeira soberania popular. É preciso esclarecer que o voto, por si só, não configura uma democracia e nem sempre é garantia do direito de escolher um governo. O voto mal usado pode ser tão prejudicial a uma sociedade quanto qualquer regime autoritário, podendo servir a uma ditadura "oculta", e, no caso brasileiro. serve a uma oligarquia.

O desencanto com a promessa de desenvolvimento com a democracia das "diretas-já" fez com que muitos adotassem uma postura temerária frente à lei. E, com o intuito de satisfazer a qualquer custo as expectativas enriquecedoras prometidas, muitos tornaram-se cidadãos corruptos e perderam qualquer senso de cidadania. Os interesses próprios sobrepuseram-se aos interesses nacionais. Essa ausência de um trabalho de toda sociedade para a construção institucional da democracia resultou numa sociedade que possui aversão a si mesma e por isso alimenta-se de um processo que ocasiona sua impiedosa autodestruição. No momento, o que ocorre é que, afastado o "bode expiatório" do comunismo, camadas mais esclarecidas da população começaram a ter mais consciência das virtudes democráticas e dos seus benefícios cívicos. Certas, porém confusas, reivindicam uma situação assegurada pelo direito constitucional, mas que não possuem na prática. O que estamos vendo na PF é o resultado dessa tomada de consciência, que de forma atrabiliária se confronta com a democracia de mentirinha em que vivemos até hoje.

No atual estado das coisas, qualquer historiador sabe qual será o final desse período histórico brasileiro: as elites vigentes favorecerão a repressão, limitarão os direitos democráticos, o que poderá se dar por exemplo com o ressurgimento de decretos-leis, ou AIs (Atos Institucionais), ou até chegar à "fujimorização". Só a recuperação econômica imediata poderá evitar o pior e garantir a democracia. Mas, para isso, o tal jeitinho brasileiro, a roubalheira, precisa acabar. Vocês acreditam em milagre? Entao é melhor começar a rezar...

Bia Botana é analista político

GENTE QUE FAZ



Terça-feira, 6/7/93

Gente que faz

BIA BOTANA

Em que situação terrível nos encontramos! Seria tão agradável por uma vez ao menos poder escrever algo de bom e elogiável, mas triste é essa nossa profissão que nos obriga a exercer sempre a postura de "advogado do diabo."

Gostaria de saber como os outros brasileiros estão se sentindo em relação ao caso PC, melhor seria chamar caso Collor, talvez também se sintam aviltados e indignados. É mais do que evidente que PC não é o tubarão dessa história, não passa de um bode expiatório. Ele é bandido, sim, mas um bandido burro, o que vem amargando muito os verdadeiros poderosos, porquanto seus planos foram irreversivelmente comprometidos e agora Paulo César Farias sabe demais, tornando-se um complicador sem precedentes para a manutenção do status quo vigente no País.

Mas não é só o sr. PC que sabe demais, nós todos sabemos, entretanto nos mantermos calados com medo de que o vaso rachado da democracia se quebre de uma vez. Sinto ter que lembrar aos leitores que o senhor presidente Itamar Franco era vice de Collor e se compôs com ele durante o período de campanha eleitoral. Ora, é certo que, como muitos outros, ele pode alegar que Collor o enganou e que todas as maracutaias foram feitas a sua revelia; foi assim tão ingênuo quanto muitos empresários, que alardeavam no passado ter colaborado com a campanha colorida para derrotar a ameaça petista. Todos foram assim enganados, até o povo, logo estão todos perdoados. Entretanto, os tubarões continuam os mesmos após a queda de Collor; como bem se diz, "quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas."

Desculpem-me, mas essa onda toda da prisão do PC é ridícula, para não dizer insuportável. O Brasil está desmoralizado, não é preciso nenhum PC para sabermos que a Justiça tem sido, na maioria do seu tempo, cega e venal. Todavia, o brasileiro vai vivendo, mesmo sem poder mais distinguir a fantasia da vida real. O que é verdade, o que é mentira? A festa do Ibrahim Sued no Copa (urn luxo só), ou o flagelo dos doentes abandonados nas macas dos corredores dos hospitais (miséria só)? Real ou irreal? Na TV as imagens são surrealistas, Felini adoraria e Freud não acreditaria em tanta loucura!

O que podemos fazer? Nada, pouco ou surpreendentemente muito, como vem sendo apresentado pela campanha institucional do Banco Bamerindus, "Gente que faz", capaz de enternecer e despertar esperança nos nossos coraçõee com a apresentação das realizações pessoais de brasileiros exemplares. Cada um no seu mundo particular desenvolve inacieditáveis potenciais, e assim demonstram que são eles os sólidos alicerces deste País, capazes de o sustentarem durante os períodos difíceis, quase de calamidade. É incrível, mas, na hora do "vamos ver", quem segura e manda no destino do País são as figuras anônimas desconhecidas das luzes televisivas e da poderosa "mídia." É essa "Gente que faz" que conduz essa nau pelo mar da vida, e é certo que não vão ser os PCs, os Fernandos Collors e outras laranjas podres que vão impedir o seu avanço. As frutas estragadas serão jogadas fora, não irão contaminar as outras frutas do cesto, seja pela mão da Justiça ou pelas mãos dos brasileiros íntegros. Sim, porque ainda existem muitos brasileiros íntegros, brasileiros que não seguiram o exemplo de bandalheira e bandidagem dado por muitos poderosos. Gente essa considerada ignorante e mal informada mas que está disposta a lutar para colocar este País no seu, lugar merecido. Gente para qual ser íntegro e honesto não tem nada demais, não é virtude nem mérito, mas sim uma obrigação natural.

Não, não devemos nos desanimar, nem perder as esperanças, todos nós podemos fazer algo para o Brasil sair desse sufoco, podemos começar pela nossa própria vida, o nosso dia-a-dia, podemos mudar de verdade as coisas se primeiro mudarmos nós mesmos.

Bia Botana é análista político

VIVER POR VIVER



Quinta-feira, 1/7/93

Viver por viver

BIA BOTANA

Não é mera coincidência que o surgimento da cocaína como droga popular esteja atrelada a um estado caracteirzado pelos acontecimentos que ocorrem em ritmo alucinante. A disseminação das drogas (LSD, maconha, ópio, haxixe, cocaína e suas variações, etc), a partir da década de 60, transformou o mundo, redimencionando a condição humana e transformando a sociedade, de modo que nos anos 80 a explosão mundial da cocaína fez com que as pessoas sofressem suas reações mesmo sem se drogarem, pois os fatos passaram a ocorrerem atrelados a ela, ocasionando euforia e exagerada segurança, seguida de depressão, dependência e de síndrome de abstinência, alternando tempo de valentia com tempo de covardia. Agora, nos anos 90, a humanidade está drogada, já que existem drogados em todos os setores da sociedade. Não é de admirar que aqueles que permanecem lúcidos fiquem cada dia mais estarrecidos.

A droga não está no submundo, não é coisa só de criminoso, ela está infiltrada em todas as países. Geradora de grandes fortunas mágicas, ela se infiltrou nas elites que traçam os caminhos da sociedade. Deixemos de ser cínicos, ela está entre nós, não podemos mais fechar os olhos para essa realidade que foi criada para ela e que nos impede de viver como nos bons tempos: vivendo por viver.

Sim, houve um tempo em que as pessoas viviam por viver, sern considerar felicidade ou tristeza, perdas ou ganhos, vitória ou derrota, alegria ou sofrimento, tudo isso era vida e havia tempo para viver cada uma dessas situações, assimilá-las e realizá-las sem conflitos maiores, porque vivia-se um dia por vez e ninguém era atropelado por acontecimentos sobressaltantes geradores de ansiedades constantes, enfim, a loucura não estava solta.

Atualmente, todo mundo tem que ser feliz, vitorioso, rico e alegre, determinam-se metas de sucesso constantes, que geram cada vez mais altas expectativas em relação ao destino, seja no campo profissional ou no campo afetivo de auto-estima ou mesmo o do amor. Ora, está tudo errado! Tamanho sucesso não existe na vida comum, desfrutada por mais de 90% dos seres humanos. Logo passou a existir um número sem fim de pessoas frustradas e com isso a inveja prospera e o desejo pela luxúria contemporânea chega a deixar muitas pessoas doentes enquanto corrompe a tantas outras.

Vejam agora o que aconteceu nestes últimos anos no Brasil. Temos vivido nesse ritmo maluco sem previsão nem planejamento, parecendo um país de doidos, se não pudéssemos verificar que o mesmo fenômeno ocorre no resto do mundo. Mais recentemente, pudemos ver o fim que tiveram as expectativas irreais criadas em torno do ministro Fernando Henrique Cardoso, que no curto espaço de um mês teve a sua imagem idolatrada de super-herói esfacelada pelo descrédito, situação que fez ressurgir o fantasma do golpe antidemocrático. Sinto dizer, mas tal situação que fez ressurgir o fantasma do golpe antidemocrático parece coisa de criança birrenta, que fica quebrando o brinquedo novo para ganhar outro, ou pior, de forma masoquista na expectativa do castigo paterno. Graças à bondade divina, as nossas Forças Armadas são sábias e estão cansadas das fúteis suscetibilidades dos filhos da Pátria, preferem deixá-los aprender sozinhos que ter liberdade não é ser libertino e irresponsável.

O ritmo cocaína só tem feito mal ao Brasil. A fome, o crime, a inflação, a recessão e tantos outros males são conseqüências dessa droga, que freqüenta com a mesma naturalidade os salões das elites como os becos sujos das favelas. Não há diferença entre um drogado rico e um pobre, ambos são alienados, não obstante um empresário drogado pode causar mais dano à sociedade que um gari.

Talvez devêssemos parar para pensar, talvez a sucessão de fatos fantásticos e emocinantes não seja necessariamente a certeza de uma vida gratificante, talvez devamos ponderar se uma vida sem tanta explosão de adrenalina pode ser muito mais construtiva e prazerosa. Está em nós mudarmos e dizermos não à loucura. Já vimos que a sociedade cocaína não nos trouxe nada de bom, voltemos a viver por viver, para deixar o Brasil viver tarnbém.

Bia Botana é analista política

VAIDADES PESSOAIS




Sexta-feira, 25/06/93

Vaidades pessoais

BIA BOTANA

Nada como as festas juninas para ajudar o processo de detonação do PAI, assim chamado o Programa de Ação Imediata elaborado pelo ministro Fernando Henrique Cardoso. O certo é que o Plano Verdade não decolou e não vai decolar. Está sim recebendo bombardeios por todos os lados, são talvez os fogos de São João. A falta de transparência e as atitudes contraditórias do governo têm colaborado para que a deliberação da detonação do plano comece a ocorrer com eficaz rapidez e com isso perdemos todos nós, pois os princípios que dimensionam o Plano Verdade estão corretíssimos, se vierem a ser bem aplicados em curto espaço de tempo. Vejamos na real, o que significam US$ 6 bilhões em relação a US$ 234 bilhões? Muito pouco, na verdade, então por que estaria ocorrendo tanta mobilização da classe política para negociar os cortes no Orçamento? Não pretende o governo atender na lista de prioridades as prioridades mais urgentes? O que vem ocorrendo é uma chantagem vergonhosa que permeia a distribuição de cargos a futuros cabos eleitorais em troca do apoio ao governo, e é a isso, um jogo de cartas marcadas, que os nossos políticos chamam de democracia!

Talvez a melhor coisa que poderia acontecer para o Brasil, e para a sua saúde econômica, seria que o povo exigisse eleições já, ou que o presidente Itamar Franco tivesse a coragem de tomar a iniciativa e convocá-las de modo a dar uma parada nessa politicagem das composições partidárias e em outros vícios políticos que vêm comprometendo o exercício democrático brasileiro. Se tal medida ocorresse, não haveria tempo para arrecadações de verbas, tanto dos cofres públicos como dos particulares, para as campanhas eleitorais. As malas pretas dos lobistas não teriam tempo de corromper durante a revisão constitucional, por exemplo. O Brasil faria uma grandiosa economia, além das contas da União se equilibrarem magicamente, pois o povo não teria de pagar um preço tão alto para ter um governo democrático; teríamos a certeza da eleição de políticos competentes, já que só os bons políticos teriam capacidade para se eleger, em razão do pleno atendimento que deram ao seu eleitorado durante o exercício do seu mandato. A antecipação das eleições de 1994, portanto, seria uma medida salutar para dar início ao fim da comrpção.

O fato é que as campanhas eleitorais brasileiras se tornaram extremamente dispendiosas. O custo de um voto no Brasil atingiu a cifra louca de US$ 20, enquanto nos EUA é de US$ 7 e na França é de US$ 5. A única razão possível para um custo tão caro do voto talvez esteja na questão de as reservas destinadas às campanhas também servirem para financiar não só a boa vida dos candidatos, a exemplo do ocorrido com o ex-presidente Collor, como para influenciar decisões políticas futuras no Congresso e em outros setores do governo.

Pobre ministro Fernando Henrique Cardoso, seu plano não tem e não terá a menor possibilidade de funcionar nos termos democráticos propostos, do momento que o seu nome foi vinculado como candidato à presidência da República. A razão é óbvia, não precisa ser nenhum psicanalista para saber que o ciúme político dos seus companheiros de lida será, e já é, o único motivo que impedirá e se oporá ao seu sucesso.

É mehor nos prepararmos para tempos mais difíceis ainda do que vivemos no presente. Foi acesa a fogueira das vaidades pessoais, e essa fogueira poderá incendiar todo o País se o seu ardor não for imeàiatamente restringido. Será bom lembrar que nestes últimos nove anos, ou quem sabe desde o princípio da abertura política no governo Geisel, a classe politica e o Estado nunca foram considerados culpados da ação inflacionária, esta sempre delegada a uma população tachada de especuladora e impatriótica. Como diz o dito popular: "Pimenta nos olhos dos outros não arde." Só por ter tido o peito de dizer as coisas como realmente são o ministro Cardoso já passou para a história, mas poderia ter destaque nela se detonasse seus detonadores, dando um basta à roubalheira política que enlameia a democracia brasileira.

Bia Botana é analista política

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

UM POVO PERPLEXO



Quarta-feira, 16/6/93

Um povo perplexo

BIA BOTANA


Não sei se alguém já percebeu, mas a palavra mais usada ultimamente é perplexo. Todo mundo se diz perplexo, e não é para menos. Estrá aí mais um plano econômico chamado por seu autor de "verdade", mas vinculado pela imprensa como "FHC'' que pode significar "Farmácia Honorária do Cruzeiro" (Cruzeiro era o nome da moeda brasileira na época), ou quem sabe "Fantástico Herói do Cruzeiro" ou então uma versão bizarra de "Fantoche Hilário do Cruzeiro", mas cuja intelpretação correta, desta sigla irreverente, é o nome do nosso valoroso ministro da Fazenda, professor e senador Fernando Henrique Cardoso, que, mesmo não sendo uma instituição salvadora e missionária, recebeu uma tarefa digna de Hércules: conter a atual inflação brasileira, que se encontra na casa dos 2.200% ao ano, façanha esta que, se realizada, poderá tornar o ministro Cardoso o novo Péricles desta era.

Só para termos uma idéia da magnitude do problema econômico brasileiro, voltemos ao passado. No ano de 1963, a inflação atingia a assustadora marca dos 81,3%, e quando em 1964 ela atingiu 91,9%, ocorreu a intervenção militar. Em 1973, a inflação atingiria 15,5%, um índice espantoso e até inacreditável em relação ao Brasil atual. A política econômica então adotada parecia ser um sucesso e prometia ao Brasil um lugar de destaque na economia mundial. Mas foi então que ocorreu a fatalidade, quando neste ano, em outubro, eclodiu a guerra no Oriente Médio em razão das ambições territoriais israelenses, e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo decidiu adotar o embargo do fornecimento do petróleo árabe, levando o preço do barril do óleo às alturas, o que ocasionou o desequilíbrio da balança comercial dos países importadores de petróleo, entre eles o Brasil. 

O governo Geisel legou ao seu sucessor uma inflação anual de 43% , que em 1979 chegaria a 57%. No dia 18 de abril daquele ano, o governo Figueiredo anunciaria primeiro pacote econômico anti-inflacionário, inaugurando a era dos planos econômicos milagrosos. A inflação não reverteu a curto prazo como esperado e, em 1982, o índice atingiu 95% ao ano, em razão do Plano Reagan adotado pelos EUA, em 18 de abril, o qual determinou o aumento das taxas de juros ("prime-rate") e com isso supervalorizou o dólar no mercado internacional. O chamado "setembro negro" chegaria, obrigando o governo brasileiro a iniciar um penoso processo de renegociação da dívida externa, que o fez apelar contrariado ao Fundo Monetário Internaciaonal, atitude essa que fora até então adiada por todos os meios disponíveis.

Em 1983, o quadro econômico deteriorou-se ainda mais, uma inflação de 152% ao ano. A partir de então, a inflação passaria a recrudescer e de três dígitos passou para quatro, num processo acelerativo que assola a vida dos brasileiros, um povo perplexo com a "indústria da inflação", capaz de enriquecer alguns do dia para a noite, de permeio a especulação e a corrupção, enquanto empobrece a grande maioria sem acesso aos mecanismos dessas pouco sérias riquezas.

Antes do anúncio do seu plano "verdade", o ministro Cardoso se disse "absolutamente perplexo"com a reação de certos políticos, que reclamavam maior participação nas discussões sobre o plano de ação do governo. Ora, a perplexidade do ministro se devia muito mais ao comportamento discutíveI desses políticos, mais preocupados com as nomeações ao segundo e terceiro escalões do governo, tão necessários às negociações políticas às próximas eleições, e com os ameaçadores cortes orçamentais –  sim, pois é difícil saber quem não participará das próximas eleições e haja dinheiro para bancar tatas campanhas –, do que com o combate à inflação. Portanto, não foi de admirarque o ministro Cardoso fosse também a Roberto Marinho, o todo-poderoso cidadão kane e porta-voz dos 300 empresários que dominam a economia brasileira, pedir cooperação e o redimensionamento das ambições lucrativas do setor privado (leia-se oligopólios), para recolocar o Estado "funcionando dentro dos trilhos". 

O certo é que este plano manda um recado claro: chega de baderna! Resta agora que o governo e o ministro tenham pulso firme com esse bando de bagunceiros.

 Bia Botana é analista política

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Um povo pefplexo

BIA BOTA]{A

JUSTIÇA DIFÍCIL



Sexta-feira, 11/6/93

Justiça difícil

BIA BOTANA

A vida de uma criança índia vale mais que a de uma criança nordestina? Um nordestino não teria direitos iguais ao índio? Não é o índio um brasileiro? Como explicar então que índios tenham direito a vastas áreas territoriais para sua sobrevivência enquanto tantos outros brasileiros não possuem nem um palmo de terra para plantar um pé de alface que seja? Quero ser índio, já!!!

Sem dúvida, a realidade brasileira de 1988, que permitiu a exacerbação da proteção ao índio na Constituição, não é a mesma que se apresenta nos dias atuais. Com isto, a bandeira indígena, então defendida nos últimos anos com fervor ideológico temerário, conseguindo mobilizar grandes personalidades mundiais em campanhas defensivas dos índios amazônicos e chegou a acaloradas discussões no Senado norte-americano, perdeu sua idéia-força por falta de sustentação justa. Não foi de estranhar que no dia mundial do meio ambiente, no último dia 5 de junho, desta vez os índios nem foram lembrados. É inegável que no momento existem problemas mundiais muito mais sérios.

É difícil, no presente, convencer qualquer consciência justa e equilibrada de que índios tenham mais direitos à sobrevivência que qualquer outro ser humano. Assim como é difícil aceitar que os índios devam ficar limitados nurna reserva sem contato com o mundo civilizado, como se fossem animais num zoológico, não obstante tal medida se justifique como forma de preservar a cultura indígena, assim como a subsistência e perpetuação da raça. Serão eles animais ou seres humanos?

A atitude paternalista de certos antropólogos e ecologistas de condenar os índios ao estado primitivo sem lhes dar a opção de escolha é questionável, pois impede o processo de integração racial característico da evolução humana. A própria história da humanidade narra a convivência, embora nem sempre pacífica, de grupos humanos com características civilizatórias mais avançadas ou mais primitivas num mesmo momento temporal. A narrativa do historiador grego Heródoto sobre os Citas demonstra como sempre existiram grandes diferenças de estágios culturais entre os grupos humanos numa mesma época.

Excluir um ser humano do processo evolutivo e condená-lo a um estado de primitivismo é tão injusto quanto negar-se o direito a alguém de uma educação e formação adequadas ao seu tempo. E negar conhecimento subtraindo informações que permitam seu desenvolvimento e progresso. Se não houvesse havido interação cultural entre os primitivos alamanos e os civilizados rornanos, a atual civilização ocidental não teria surgido.

E de admirar-se que, contrariando a própria natureza, neste século, a interação racial não ocorra, e que, ao contrário, defenda-se a segregação. Como compreender que pessoas que se dizem sectários humanistas não vejam o crime que cometem ao rejeitarem projetos viabilizadores da integração dos índios à civilização contemporânea com cuidada assistência. Talvez não percebam que desta maneira só fazem retardar o curso natural dos acontecimentos, quando não instigando situações geradoras de graves conflitos. É interessante e relevante lembrarmos que, quando os europeus chegaram à África, a população indígena da raça negra encontrava-se em franco processo de extinção. Por ironia da vida, o comércio escravagista pela a América e o extrativismo desenfreado das riquezas minerais africanas é que viriam garantir a sobrevivência da raça negra e o seu recrudescimento.

Ninguém pode afirmar taxativamente que a convivência do índio, em especial das tribos amazônicas, com a raça branca seja uma condenação a um processo de extinção indígena. Ao contrário, poderá até ser a salvação desta raça humana. Está mais do que na hora de repensarmos a questão indígena e passarmos a ver o índio como um ser humano igual a nós e não como um animal em extinção, um ser irresponsável. Temos muito o que aprender um com o outro, hoje, amanhã e sempre.

Bia Botana é analista política