SEMENTES

Bem Vindos!

Sempre pensei que escrever é semear idéias.
Aqui vocês encontrarão as sementes que eu já plantei,
que germinaram, cresceram, deram flores e frutos.

Esse Blog é a semente dos frutos colhidos há muito tempo,
elas dormiram na escuridão por longos anos
e agora
eu estou a semeá-las novamente...,
para germinarem, crescerem, florescerem...
e um dia darem seus frutos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ALGO ESTÁ ERRADO



Quinta-feira, 20/5/93

Algo está errado

BIA BOTANA

Se fixarmos nossa atenção no cotidiano das principais manchetes jornalísticas do País, poderemos fazer uma coletânea dos maus hábitos adquiridos pelos homens contemporâneos que se dedicam à vida pública. Não é de espantar que esses personagens constituam a classe mais desacreditada de todas as sociedades do planeta. Este fato merece toda a nossa atenção, pois nos permite verificar que a presente crise política brasileira, responsável maior por todos os outros males que atingem a Nação, possui seu tempo e lugar no processo histórico mundial, como se comprova na Itália, Rússia, Espanha e França, onde não faltam casos escandalosos sobre o mau uso dos bens Públicos.

Neste final de milênio, termo que insisto em usar, apesar de algumas pessoas me considerarem dramática, se contesta e se analisa não só o comporlamento surrealista dos homens públicos e líderes políticos, mas também a moral sobre a qual se alicerçam os códigos penais, que limitam e punem um indivíduo através da aplicação das penas da lei que restringe a liberdade de cada sociedade, segundo os seus cosfumes e cultura. A íntima relação existente entre a cultura de uma sociedade e suas leis determina os valores morais dela dentro de um período temporal e por conseguinte a sua história. Por exemplo, de acordo com o antigo livro chinês das Transmutações, o "I Ching", o ganho por meios censuráveis, desde que não tragam prejuízos a outras pessoas e cuja ação esteja impregnada de sinceridade, não envolve culpa nem erro (Hexagramas 41 e 42). Tal moral veio a despertar em Confúcio um comentário sobre aquela tradição de que "o fato de se conseguir alguma coisa por meios condenáveis pode levar à suposição de que tais meios são naturais". Ora, mas não foram só os sábios orientais que admitiram que a corrupção faz parte da natureza humana a ponto de em determinados momentos se confundir com uma virtude. A própria Bíblia é um prato cheio de atos corruptos inexplicavelmente abençoados pelo deus dos hebreus Iavé. Caso típico é o do pobre Esaú, que foi duramente ludibriado por Jacó, seu esperto irmão gêmeo, que lhe roubou descaradamente a progenitura, como está descrito no livro do Gênesis, e cujo comportamento, de Jacó, é considerado correto por muitos crentes e justifica muitas das atitudes pouco dignas dos seguidores da moral judaico-cristã que rege a maior parte da moralidade atual.

Algo está muito errado no momento em que o Congresso de uma país como os Estados Unidos aprova uma lei que permite o "rapto" de qualquer individuo em solo estiangeiro se este for considerado inimigo dos EUA, e todos países do planeta aceitam o fato mudos, sem protestar. Algo está muito errado quando grandes banqueiros mundiais não questionam a origem dos volumosos depósitos em seus cofres. Afinal, ainda não existem cães farejadores para distinguir as criminosas fontes de dinheiro, e tudo é uma questão de usar a "lavanderia" certa... Assim, o FMI, mesmo não sendo de todo impoluto, pode intervir de maneira chantageosa e cínica sobre os chamados países de segunda classe como arauto da moralidade econômica. Algo está mais errado ainda quando sabemos de tudo isso e acabamos aceitando como coisa natural. Está errado, sim, é não vermos que o mundo já não é o mesmo e que o materialismo do poder econômico se tornou de tal forma grandioso que também determinou uma nova moral cujas leis não estão contidas em nenhum código penal. Esse é um mundo cão onde o poder do dinheiro torna um indivíduo acima da lei e lhe permite considerar o resto da humanidade imbecilizada.

A corrupção e o uso indevido dos bens públicos são crimes tão grandes quanto o latrocínio e o assassinato, por lesarem uma população, podendo ocasionar até o genocídio, como no Brasil. Não se pode banalizar o mal. A atual onda de crimes públicos não é só um problema a ser resolvido com severidade penal, mas é sobretudo um sintoma alarmante de uma sociedade viciada e doente, cuja cura ainda não foi descoberta.

Bia Botana é analista política

terça-feira, 15 de novembro de 2011

FORÇAS DESARMADAS



Terça-feira, 11/05/93

Forças desarmadas

BIA BOTANA

No ano de 1968, podia-se protestar dando-se uma longa tragada no cigarro, para depois soltar uma baforada fedorenta e rebelde para esfumaçar arrogantemente o ar. Vinte e cinco anos depois pode-se encontrar o mesmo rebelde, agora cheio de anos, apagando o cigarro no cinzeiro, e com um gesto de raiva jogar ambos no cesto de lixo acompanhados do estimado isqueiro e da carteira recém-aberta de cigarros. 

A atitude de revolta pode ser encontrada nos dois casos em situações diferentes. No primeiro caso, ela se manifesta contra uma consciência externa e superior que aparenta limitar a liberdade do indivíduo, já no segundo caso, a consciência interior da pessoa reconhece a autolimitação de sua liberdade através de um ridículo vício.

Pode parecer estranho, mas é possível traçar-se uma analogia entre a tolice de fumar e a busca do ideal democrático dentro do recente quadro político brasileiro. Em 1968, protestar contra os militares que haviam tomado o poder e tirado a liberdade do povo era a máxima intelectual da época. Mas a verdade era outra, como poucos ousam ainda hoje dizê-lo, caso de Elio Gaspari, que em seu recente artigo na "VEJA" denunciou: "Quem dá golpe no Brasil são os gatos gordos da vida civil" e fechou seu pensamento dizendo "... e, quando a festa acabou, jogaram a tortura na conta das Forças Armadas e foram lamber os beiços em Paris."

Políticos, como o sr. Ulisses Guimarães, fizeram toda uma geração acreditar que a democracia era o paraíso a ser alcançado e que daria a solução para todos os problemas brasileiros. Quando, em 1984, os temíveis generais não reprimiram o movimento das "Diretas-já" e deram de bandeja o governo nas mãos dos políticos e civis, a população surpreendeu-se, crendo-se vitoriosa sobre a ditadura. Ledo engano. Quase nove anos depois desse fato, o povo brasileiro se encontra muitas vezes mais desesperado e anseia sedento pela ordem ou um milagre que lhe dê condições sociais, políticas e econômicas que permitam o trabalho honesto e uma digna sobrevivência. Queremos apagar o fogo do Congresso. como se pudéssemos apagar um cigarro. Queremos nos livrar dos políticos como nos livramos de um maço de cigarros inútil. E por fim queremos nos esquecer da tal democracia, como esquecemos de um vício que não deu tanta satisfação quanto esperávamos.

Cada dia que passa, mais e mais olhos buscam ansiosos a segurança protetora das Forças Armadas, que durante a Eco-92 demonstraram que o Rio de Janeiro pode ser uma cidade segura e viável. Mesmo que seja à custa da presença ameaçadora dos canhões, muitos cariocas desejariam que aqueles dias de segurança não findassem. Apesar dessa isolada demonstração de poder, na realidade nestes últimos nove anos as Forças Armadas também foram abandonadas a um cruel destino, e como o resto do País, também vieram a se encontrar ameaçadas pela miséria.

Sem recursos e investimentos durante esse período, o custeio e manutenção das Forças Armadas foi destituído de importância dentro das prioridades políticas, apesar de sua grandiosa responsabilidade para a tranquílidade e a segurança da Nação. Transformadas em Forças Desarmadas pelos nossos ignorantes políticos, temerosos de perderem novamente o poder de ludibriar a população, as Forças Armadas não possuem, como em 1964, todo o poder para garantir a resposta ao pedido de socorro que virá, quando acorrerem para seus braços a classe média e o empresariado apavorados, ao verem o Brasil se desintegrar, caindo como um frágil castelo de cartas.

O absurdo do estado em que se encontram as Forças Armadas é um contrassenso histórico, já que é facilmente comprovável que a estabilidade de uma nação reside no seu poder bélico mesmo em tempo de paz. O Brasil já se tornou presa fácil para as ambições gananciosas de certos grupos internacionais duvidosos, que não hesitam em financiar tortuosos caminhos políticos para melhor dominar o País. Defender o pronto reequipamento das Forças Armadas e investimentos que lhes devolvam seu digno papel institucional é o que nos resta para impedir o fim caótico do País. E melhor parar de fumar que morrer de câncer.

Bia Botana é analista política

PAI DA PÁTRIA



Sábado, 1/5/93

Pai da Pátria

BIA BOTANA

Ser analista político, no presente momento do cenário brasileiro, é uma função de extrema dificuldade exigindo que tenhamos o dom de pitonisa ou mago para sua prática arguta, isto em razão de ser impossível se prever o caminho político-econômico futuro do País. Todavia, apesar de não termos o poder de prever o futuro, é nossa obrigação imaginar as possibilidades mais racionais de um porvir com base no presente e nos recentes acontecimentos.

O plebiscito de 2l de abril revelou que o povo brasileiro ainda esta à espera de um "Pai da Pátria". Um conceito tão próprio e antigo da humanidade que deu origem aos desapreciados reis, um arquétipo saído da monarquia que transvestiu a república, a imagem de um homem superior com poder de tutelar a vida de muitos.

O povo preferiu a imagem heróica do líder saído do seu seio, mesmo que sua origem aristocrática não o dentifique plenamente como fiel representante popular, e que na verdade para esse líder a defesa dos interesses do povo não seja relevante além das promessas eleitorais, Pode parecer absurdo, mas somos fascinados pelas situações utópicas e teimamos em concretizá-las mesmo conhecendo seus desastrosos resultados. Entretanto, apesar de preferência popular de uma República Presidencialista, a pendente revisão da Carta de 1988 poderá transformar fundamentalmente a representação do papel presidencial, e o "Pai da Pátria" não terá então tanto poder como o que lhe é conferido, atualmente.

O povo não sabe, mas votou num sistema de governo que estará sujeito a grandes reformas, que, em caso de serem aprovadas durante a revisão constitucional, darão ao Brasil um sistema híbrido presidencialista. Essas reformas pretendem, pois, limitar as atribuições presidenciais e dar mais poder de fogo ao Congresso. Propõe-se não só a redução do mandato presidencial, mas também que o presidente tenha a maioria parlamentar necessária para colocar seu programa de ação. Com tais medidas, poder-se-á aperfeiçoar o presidencialismo, o que pressupõe um Congresso forte, de forma que deputados e senadores tenderão a irnpor uma: parceria mais estreita com o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. 

Essas reformas no presidencialismo serão bem-vindas, já que o presidencialismo "imperial" vigente está ultrapassado, sendo só próprio das nações subdesenvolvidas e caracteriza-se como um sistema antidemocrático. Mas esse projeto político evoluclonista não pode ser dado como certo, já que está comprometido com a discussão que envolve a realização ou não da próxima revisão constitucional, marcada para outubro, deste ano, a qual poderá ser adiantada ou até postergada.

O destino do País da decisão sobre o destino da revisão da Carta de 1988, quer seja abrangente ou restrita, poderá dar novos rumos à política brasileira, e, em caso de sua realização, constituir-se-á em meios para impedir que o ocupante do cargo de "Pai da Pátria" exorbite o poder e garantir que os direitos individuais dos cidadãos brasileiros venham a ser enriquecidos pela jurisprudência, de forma a transmitir a tranqüilidade e o bem-estar para o exercício do trabalho produtivo a eles, assim como dando-lhes meios de vencer a crise econômica crônica que os assola.

Para isso será mais que necessário que os atuais congressistas se embuam de valores patrióticos verdadeiros e façam um trabalho sério e rápido, pois vale lembrar que esse Congresso já se encontra em fim de mandato e não chegou a elaborar a legislação complementar precisa à Constituição de 1988. Assim sendo, o que se poderá esperar da revisão constitucional? Mais uma vez exigir responsabilidade legislativa é o que nos resta, para nos opormos que um pretenso "Pai da Pátria", que será eleito em 1994, se transforme num malfazejo padrasto.

 Bia Botana é analista política

SANTO OU MONSTRO?



Quarta-feira, 28/04/93

Santo ou monstro?

BlA BOTANA

Como acertadament€e o disse Howard Fast "somos tãoo confusos acerca do bem e do mal que alguns homens se tornam santos e outros se tornam monstros". Ao contrário do que se possa pensar, a justiça não foi algo criado por Deus, mas sim pelos seres humanos. A antiga Lei de Talião, "olho por olho, dente por dente", que remonta há tantos milênios, sobrevive até os nossos dias, apesar de todo o evolucionismo civilizatório, estando presente nos mais ínfimos atos cotidianos de cada um de nós.

Quisera podermos construir um mundo que correspondesse ao ideal que temos de justiça, mas, quanto mais buscamos realizá-lo, mais impomos a retaliação. Como poderemos então proceder para mudarmos essa lamentiível condição humana? Jesus nos propôs que "amássemos ao próximo como a nós mesmos', ou que não fizéssemos a este o que não desejamos para nós. Seria a solução perfeita, porquanto essa proposta não fosse tão grandiosamente sobre-humana que, passados quase dois mil anos, ainda não a conseguimos cumprir, além de ter colocado em dúvida o próprio conceito de justiça da humanidade.

O mesmo tem se dado em relação à almejada democracia. Conscientemente, todo cidadão a considera um ideal político-social a ser alcançado e realizado. Entretanto, surpreendemo-nos com a dificuldade enorme de implantá-la em sua pura essência na sociedade, de tal modo que por vezes nos questionamos, devido a nossa incompreensão dos acontecimentos, se ela é um bem ou um mal.

O plebiscito de 2l de abril, mais do que outra coisa, colocou em dúvida a realidade democrática brasileira, e nós nos surpreendemos com a confusão sentida por não sabermos defini-la em termos reais e concluirmos que só possuíamos uma conscientização de um ideal pouco claro e um tanto confuso. Saímos desse plebiscito da mesma forma que entramos: com cruéis dúvidas sobre o futuro do nosso País.

Muitos brasileiros, de uma forrna ou de outra, e com suas convicções próprias, têm tentado contribuir para a construção de um País melhor, todavia a nossa grandiosa "Torre de Babel" se mantém inabalável, porque, apesar de todas essas contribuições, não obtemos uma união, um consenso comum que nos faça parar de caminharmos para direções opostas.

O Brasil, o nosso amado Brasil, torna-se a cada dia que passa um verdadeiro cadinho cultural do mundo, razão de suas idiossincrasias anacrônicas, que a todos confundem e assustam, por revelarem um possível futuro porvir da própria humanidade.

Sabemos que o vitorioso de hoje poderá ser,o grande derrotado de amanhã, que o resultado das urnas plebiscitárias mede na verdade a conscientização política brasileira e revelou absurdas incoerências sofismais. Uma análise acurada desse resultado só poderá ser feita dentro de algum tempo, quando muito do que estava oculto durante as campanhas plebiscitárias se revelar à luz da implensa e da "mídia". Enquanto isso, todo brasileiro sofrerá na carne as conseqüências dramáticas do expirar do governo Itamar. Esses apreensivos momentos finais terão o poder de determinar ou um futuro próximo catastróÍico ou o início de um período construtivo e promissor. Dependendo do resuliado, o presidente poderá passar para a história com a imagem de um santo ou de um monstro. Esse é o ônus para toda pessoa que tem a coragem de se dedicar à política, pois não bastam boas intenções, são necessários também atos firmes e arrojados. Aquele que não deseja esse destino devia pensar antes e, como Sócrates, se abster de envolver-se com as coisas públicas para não macular a sua honra, não obstante, por ironia da vida, tenha sido justarnente a sua omissão cidadânica a causa de sua condenação e morte, na primeira democracia da história.

Bia Botana analista política

21 DE ABRIL: O COMEÇO DA LUTA



Terça-feira, 20/04/93

21 de abril: o começo da luta

BlA BOTANA

Por ocasião do final da campanha plebiscitária, a Monarquia foi criticada impiedosamenie por seus rivais. Não faltaram ataques chulos, repletos de inverdades, que mais desconcertantemente demonstravam a ignorância da história do Brasil do que comprovavam a incorreção de comportamento do período monárquico. As incriminações falsas lançadas pelos presidencialistas e parlamentaristas só fizeram reafirmar a tradição perversa do uso de mentiras para sustentarem a nossa falaciosa República, cuja nobreza de seus ideais foi, desde a sua implantação. abandonada em prol de uma elite gananciosa de poder.

Todavia, a surpreendente reação agressiva de última hora dos republicanos tem sua razão de ser, já que, no transcorrer da campanha plebiscutária, o movimento monarquista, ao contrário do que se esperava, cresceu dia após dia, apesar de este fato não ter sido devidamente divulgado pelos órgãos de pesquisa de opinião pública. Para espanto geral, a Monarquia se apresenta como o grande azarão do plebiscito, a "zebra" que pode dar.

O crescimento do movimento monarquista se deu de maneira silenciosa, sem passeatas escandalosas, sem falsos protestos. A Monarquia foi conquistando os corações dos brasileiros, e seus símbolos começaram a ser empunhados orgulhosamente. A razão disso talvez esteja, como alguém já o disse, no fato de o movimento não ser mais uma tentativa, mas sim uma alternativa. Em sua mais pura essência, a Monarquia defende a ética, a moral, a solidariedade, a estabilidade de valores e, sobretudo, uma amplitude democrática ainda desconhecida de todos os brasileiros. A imagem do monarca real moderna é engrandecida, pois guarda em si a representação legítima do povo, de forma que rei e povo sejam uma só identidade, e flrque afiançada a soberania popular sobre o Estado burocrático e político, impedindo que seus dirigentes possam implantar uma ditadura de Estado, seja na pessoa do governante, seja através dos representantes do povo. O alto cornpromisso obrigatório do rei com o povo impede suas ligações políticas, para que possa exercer com plena liberdade o seu poder de grande vigilante e guardião dos direitos constitucionais e dar as garantias de liberdade individual e de cidadania, sem as quais nâo se ergue uma nação democrática.

No passado, a Monarquia, contra a vontade das elites da época, aboliu a escravatura negra, e, por isso, sofreu o golpismo republicano em represália do seu liberalismo. Hoje, a Monarquia nos oferece nova libertação: a abolição da escravatura dos brasileiros do Estado ditatorial republicano, que vem exercendo seu domínio alimentando uma falsa crise econômica, onde o fantasma inflacionário adquire a forma de um dragão devorador e dá motivos à formulação de leis sórdidas que permitam aos governantes roubarem cada vez mais o povo.

O movimento monarquista almeja dar um fim a esta situação mentirosa em que vivemos e mostrar a verdadeira cara do Brasil, a cara de uma das maiores potências mundiais, ao mesmo tempo que deseja dar ao povo brasileiro a parte justa que lhe cabe das fantásticas riquezas produzidas neste País, e que no momento se encontram nas mãos vis de salteadores impatrióticos.

Enganam-se aqueles que pensam que o movimento monarquista findará com o plebiscito, que, diga.se, teve sua data ardilosamente precipitada com o fim de impedir o devido esclarecimento da população. Preparem-se, corruptos e falsos democratas, porque os monarquistas continuarão a lutar. Não importa qual seja o resultado plebiscitário, os símbolos patrióticos monarquistas continuarão a conquistar os peitos brasileiros em defesa da honestidade e da grandeza de princípios. Cada monarquista se tornará um soldado disposto a derrubar todos aqueles que queiram impedir os avanços democráticos e insistam em propagar no solo brasileiro a corrupção. A luta se inicia ern 21 de abril, pois existe em nossos corações a vontade de dar aos nossos filhos um País do qual se orgulhem, e cujos governantes jamais voltem a jogar na lama o nome da Pátria e a envergonhar a Nação brasileira.

Bia Botana é anatista política

O BRASIL DO TERCEIRO MILÊNIO





Terça-feira, 13/04/93

O Brasil do terceiro milênio

BIA BOTANA

Com a aproxirnação do terceiro milênio da nossa era, uma sucessão de acontecimentos convulsivos nos deixa perplexos. O final do século passado, tal como este, não foi fácil. As transformações que ocorreram também foram tão cruciais que tiveram como resultado duas guerras mundiais de calamitosas dimensões. O recém-nascido ser humano moderno, deste final de segundo milênio, não só se mostrou muito mais poderoso que seus antepassados, mas também, apesar de todo o seu avanço científico e tecnológico, se revelou de grande desumanidade.

Os últimos levantamentos feitos pela ONU demonstraram que dois terços da humanidade são constituídos de miseráveis - em números, representam mais de 3 bilhões e 500 milhões de pessoas! Para se ter idéia dessa catástrofe e de suas proporções, é preciso saber-se que nos primeiros anos deste século a população mundial constituía-se de pouco mais de 1 bilhão de pessoas, e até então o crescimento populacional do mundo obedecia ao aumento médio de 250 milhões de pessoas por século, quando não menos.

A explosão demográfica do século XX, que deu ao mundo, em tão pouco tempo, mais de 4 bilhões de seres humanos - num total atual de mais de 5 bilhões e 500 milhões de pessoas, equivalente à soma das populações existentes previstas nos últimos dois mil anos –, teve como conseqüência o surgimento de bolsões de miséria espalhados por todo o mundo, não sendo estes exclusividade da Ásia, África e América Latina. A miséria está também em Miami, Nova lorque, Paris, Amsterdã e Londres, do mesmo modo que pode ser encontrada nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Pouco ou nada sabemos da miséria que vem assolando o chamado Primeiro Mundo, pois, além de esta não ser divulgada, é convenientemente omitida. É portanto normal que nós brasileiros acreditemos que a crise da miséria seja só nossa, o que é um ledo engano. O que torna a nossa crise mais aguda é que o Brasil é um País grande, mas não é um grande País. O que isso quer dizer é que, apesar de sermos o 4o. País do mundo em extensão territorial, o 5o. em população e sermos a 9a. economia mundial, nossa importância no cenário mundial se tornou praticamente nula com o fim da dita Guerra Fria. Enquanto, há poucos dias, a ameaça do impeachment do presidente-russo fez com que a Eurora e os EUA prontamerte oferecessem fabulosos auxílios financeiros à antiga grande inimiga, com o fim de estabilizar a economia daquele país e afastar uma ameaça de guerra civil, o impeachment de Collor não causou a mesma repercussão, nem ninguém ofereceu ao Brasil algum dinheiro para conter o nosso iminente caos social.

Lógico, é tudo uma questiio de estratégia. Uma guerra civil na Rússia arrasaria com toda a Europa, enquanto uma guerra civil no Brasil só daria a oportunidade, tão esperada, aos EUA de intervirem de maneira direta no seu quintal. Graças a Deus, aqui até revolução é na base do carnaval!

O Primeiro Mundo está inseguro, pois o lixo humano gerado pela moderna sociedade contemporânea ameaça devorá-lo com novas hordas bárbaras. A crise mundial da miséria está tomando proporções incontroláveis, porquanto está atrelada ao estado irracional emergente no ser humano quando ameaçado em sua sobrevivência, o que o torna o mais voraz animal predador.

Nós podemos não ser um grande país, mas por sermos um país grande podemos contar com volumosos recursos próprios. A crise mundial da miséria poderá não nos atingir se lançarmos mão da abundância que possuímos, e, mesmo sem contar com a ajuda estrangeira, arregaçarmos as mangas e investirmos no trabalho árduo, e com garra nos dispormos a darmos um futuro ao Brasil, no século XXI, de acordo com a sua grandeza, e o tornemos um grande País.

Bia Botana é analista política 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

INDIGNAÇÃO HIPÓCRITA




Quinta-feira 1/4/93

Indignação hipócrita 

BIA BOTANA


As pessoas não sabem o que é a pobreza. Como alguém já o disse, a pobreza é uma doença, que surge do nada e se agarra ao indivíduo, corroendo-lhe a esperança, por não saber dela se livrar. Costumeiramente, falamos da pobreza como se esta fosse surrealista, bem distante da nossa realidade que nos permite comprar um jornal para saber das fofocas e descomposturas de um ex-presidente da República, enquanto para outros o mesmo jornal é um luxo, pois precisam do custo dos míseros trocados para aplacar parcialmente a fome que sentem.

Não, não gostamos de falar da fome alheia, para não nos sentirmos culpados. Mas basta de tanta inconseqüência. Não há mais tempo para indignação hipócrita, urge a hora que nos indignemos com sinceridade contra a crescente miséria que assola o nosso País. Segundoo IBGEPNAD de 1990, a população brasileira é formada por aproximadamente 38 milhões de famílias, destas 2l milhões de famílias são pobres e famintas, 16,7 milhões são de trabalhadores que sustentam os recursos do Estado pagando pesados impostos, e só 300 mil famílias menos que 1 % da população, detêm 52% dos estoques de riquezas da Nação, além de se beneficiarem da não-elaboração da lei complementar do Artigo 153, § VII da Carta de 1988, que instituiria os impostos sobre as grandes fortunas. Assim, somos os campeões mundiais de concentração de riqueza, uma das primeiras economias do mundo, embora sejamos também portadores de um dos maiores índices de pobreza e fome.

O Brasil possui uma das maiores reservas de riquezas do mundo. Só a quantidade exorbitante de minerais e metais seria suficiente para lastrear nossa moeda e torná-la tão forte quanto o dólar. Mas isso não intetessa para os agentes econômicos mundiais. Não obstante possuirmos a maior reserva de quartzo de primeira qualidade, imprescindível à microeletrônica, somos obrigados a exportá-lo por um preço abaixo do custo de produção. Como se não bastasse, somos também os maiores exportadores de cacau, soja, frutas e outros alimentos, e apesar disso morrem de fome 1.500 crianças por dia.

A política sócio-econômica adotada desde 1984, além de ter praticado um genocídio em massa, levou um terço da população brasileira à miséria e proporcionou que o trabalho escravo, só por alimento, se tornasse uma prática comum no País. Em meio a essa atrocidade social dos últimos anos, a comissão mista do Congresso sobre o combate à fome desapareceu, como se o problema não mais existisse. Agora, o presidente ltamar Franco exige a apresentaçâo de programas, em parcos 15 dias, para a erradicação da miséria, programas esses inexistentes. Para se ter uma vaga idéia, um programa desse tipo precisa de no mínimo dois anos para a elaboração de uma pesquisa conscienciosa e mais cinco anos para a sua viabilização. Isto porque é fundamental compatibilizar as necessidades com a produtividade, de maneira a direcionar corretamente os investimentos públicos e privados para que gerem demanda. A análise do potencial gerador de recursos deve ser profunda, levando em conta a valorizaçâo do que o Brasil tem, e não sobre o que ele não tem.

Não foi por mero acaso que 29 milhões de famílias se aglutinaram nas regiões urbanas, onde é encontrado o maior índice de pobreza. O avanço desplanejado da monocultura latifundiária das fazendas industriais sobre as terras férteis, com a produção voltada para a exportação, expulsou os médios e pequ€enos agricultores. Os que resistem praticam uma produtividade de sobrevivência, sem estoques para comercialização. Com isso, o Brasil não produz alimentos suficientes para a demanda interna e nem possui meios de distribuição eficazespara o abastecimento das super populações urbanas.

Não bastará uma reform agrária, será preciso dar estrutura para devolver as famílias ao campo, e isso levará tempo e dinheiro. Será preciso lutar contra os interesses econômicos internacionais, que sustentam a economia oligárquica do País. Precisamos não deixar que a fome seja usada como uma arrna para nos subjugar a um neocolonialismo. O Brasil é nosso, são nossas as suas riquezas!

Bia Botana é analista político